Quando este mundo fica mudo dentro de nós
é quando percebemos que o preconceito é real, sai de nós, bate em nós,
nos acovarda, nos mobiliza,
move gestos, olhos, palavras, nos repete,
figuramos
não, não estamos imóveis, estamos iguais,
nem tremulamos nossos olhos, não cintilamos,
batemos, voltamos pro mesmo lugar.
Porque eu estou fatalizada, entendendo que a livraria é lugar de luxo,
que o lugar da luxúria é lugar de medo,
que existe razão pra todos esses muros altos,
para todas essas caras sérias,
para este mundo ser mudo dentro do elevador,
alguém pode, por favor, trocar de lugar comigo daqui há pouco,
Desta vez, sou eu que estou perplexa, acovardada, virei amiga do medo,
sua comadre.
Por favor, alguém troca comigo daqui há pouco?
Preciso ter vísceras, sangue quente, ter altura, ter panorama.
Eu preciso que alguém troque de lugar comigo,
não vou aguentar esta agonia igualizadora por mais cinco minutos.
Eu vejo de novo que a vida é limitada, que pra muitos perdeu a graça viver, pra mim, porque tenho tudo, inclusive medo de perder o sorriso, ainda me resta os suplicios e as próximas euforias. Por sinal, dizem que isso, a manutenção do fremitar dos lábios é mais precioso que as minhas calças e que os meus chinelos. Isto é o melhor que se pode herdar de uma mãe.
Pronto, é a vez de alguém doer de mal estar.
Abriguei-me e vi que algumas telhas mereciam ser quebradas para que eu visse o céu, visse aqueles pontos brancos na escuridão. Esse espaço pretende trazer de impressões a sensações, de versos a avessos.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
Gertrudes
O começo de tudo foi num ano de muitas chuvas.
Quadra invernosa começara cedo, era tudo porque se precisava lavar as almas.
Gertrudes conhecera primeiro muito bem Joana, que lhe apresentara João
as chuvas vinham de dia, e concentravam-se nas noites, fazendo o céu tremer
João e Gertrudes tiveram que beijar-se, Joana não soube.
Seus corpos molhados, certa noite atraíram-se
Tocaram-se, dentro a dentro
Encheram-se de memórias,
já era o outro dia, o dia de lembrar.
João e Gertrudes, porém optaram por nunca mais se verem, sendo impossível,
a promessa foi nunca mais se verem de tão perto.
Era um acordo que cada um fazia de manter-se ileso.
Depois da morte de Arturo, todos ficaram muito assustados com as coisas que saem de dentro dos corpos.Ninguém acreditava mais nas fábulas contadas pela capas dos livros encantados da Biblioteca da cidade.
Todos se possuiam somente até quando se conseguia manter o controle.
Na verdade, se tocavam na nudez somente quando havia uma vontade de certa forma insuportável, quando só se sabia correr para dentro do outro.
Acordavam nus no meio da mata, e, vez por outra, alguém via, mas não se havia o medo expresso na repetição das falas,
Aquela forma era sim a garantia de que dali, do esconderijo, só sairia o momentâneo. A continuidade que matara Arturo, foi coisa levada pra dentro das casas e Maria ainda estava ali viva para contar.
Porém, ela não contaria, ela morrera de boca. Sua boca morreu, mesmo não tendo ninguém cortado a sua língua. Isto era susto para os seus e para os demais.
O povoado crescia, como se a substituição do amor pelo esconderijo não barrasse sua forma de tomar volume.
As barrigas vinham sem dono, eram só mais gente. Por não haver polêmica, nem fala, nem pecado, isso só poderia ser bom.
As casas eram para as mães e para seus filhos,
Os filhos mais velhos, que já eram os pais, moravam onde os coubesse
Eram moradias temporárias, eram essas casas seus esconderijos.
Era desta forma que se garantia a vida.
Quadra invernosa começara cedo, era tudo porque se precisava lavar as almas.
Gertrudes conhecera primeiro muito bem Joana, que lhe apresentara João
as chuvas vinham de dia, e concentravam-se nas noites, fazendo o céu tremer
João e Gertrudes tiveram que beijar-se, Joana não soube.
Seus corpos molhados, certa noite atraíram-se
Tocaram-se, dentro a dentro
Encheram-se de memórias,
já era o outro dia, o dia de lembrar.
João e Gertrudes, porém optaram por nunca mais se verem, sendo impossível,
a promessa foi nunca mais se verem de tão perto.
Era um acordo que cada um fazia de manter-se ileso.
Depois da morte de Arturo, todos ficaram muito assustados com as coisas que saem de dentro dos corpos.Ninguém acreditava mais nas fábulas contadas pela capas dos livros encantados da Biblioteca da cidade.
Todos se possuiam somente até quando se conseguia manter o controle.
Na verdade, se tocavam na nudez somente quando havia uma vontade de certa forma insuportável, quando só se sabia correr para dentro do outro.
Acordavam nus no meio da mata, e, vez por outra, alguém via, mas não se havia o medo expresso na repetição das falas,
Aquela forma era sim a garantia de que dali, do esconderijo, só sairia o momentâneo. A continuidade que matara Arturo, foi coisa levada pra dentro das casas e Maria ainda estava ali viva para contar.
Porém, ela não contaria, ela morrera de boca. Sua boca morreu, mesmo não tendo ninguém cortado a sua língua. Isto era susto para os seus e para os demais.
O povoado crescia, como se a substituição do amor pelo esconderijo não barrasse sua forma de tomar volume.
As barrigas vinham sem dono, eram só mais gente. Por não haver polêmica, nem fala, nem pecado, isso só poderia ser bom.
As casas eram para as mães e para seus filhos,
Os filhos mais velhos, que já eram os pais, moravam onde os coubesse
Eram moradias temporárias, eram essas casas seus esconderijos.
Era desta forma que se garantia a vida.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
balbucio
Tome pluma suave em mãos, pode ser algodão, pode ser tecido, pode ser algo limpo de qualquer acidez,
Friccione na pele, estanque o suor, que tem cor de sangue, atente para o tamanho da ferida,isto parece sempre importar,
perceba, no toque seguinte, que tanto faz
ela sara,
o corpo por si tem força,
o corpo fica procurando a luz para poder enxergar
o corpo sabe sempre que encontra,
enquanto o clarão não vir cegar o que vê,
O suor com cor de sangue, cansado de escorrer, coagula,
mas antes, a pluma de algodão, tão branco de querer tanto limpar,
limpa,
estanca e se borra todo de borra latente,
borrado de odor de corpo, não serve para mais nada,
o corpo serve,
serve de novo para começar.
Embora ainda tema,
com um tanto de medo que quase o paralisa,
ele prossegue,
vai ele cheio de uma bravura que não compreende tão bem que tem,
segue até o medo passar.
Ele não tem escrúpulos é um desalentado,
um estúpido
um esculpido
como um esperto
e tem uma hora que esta ordem se inverte,
chega o socorro,
o solovanco da vida transforma tudo num passo suave,
num passe de circo as cortinas são vermelhas,
e eu só lembro de amanhã.
Friccione na pele, estanque o suor, que tem cor de sangue, atente para o tamanho da ferida,isto parece sempre importar,
perceba, no toque seguinte, que tanto faz
ela sara,
o corpo por si tem força,
o corpo fica procurando a luz para poder enxergar
o corpo sabe sempre que encontra,
enquanto o clarão não vir cegar o que vê,
O suor com cor de sangue, cansado de escorrer, coagula,
mas antes, a pluma de algodão, tão branco de querer tanto limpar,
limpa,
estanca e se borra todo de borra latente,
borrado de odor de corpo, não serve para mais nada,
o corpo serve,
serve de novo para começar.
Embora ainda tema,
com um tanto de medo que quase o paralisa,
ele prossegue,
vai ele cheio de uma bravura que não compreende tão bem que tem,
segue até o medo passar.
Ele não tem escrúpulos é um desalentado,
um estúpido
um esculpido
como um esperto
e tem uma hora que esta ordem se inverte,
chega o socorro,
o solovanco da vida transforma tudo num passo suave,
num passe de circo as cortinas são vermelhas,
e eu só lembro de amanhã.
domingo, 28 de março de 2010
Se puder esquece
Deixo que você vá, mas só com uma condição,
que você sempre me traga de volta quando minhas forças acabarem-se,
que você seja a justificativa de minha loucura,
a insanidade que reservo aos dissabores, às euforias.
Deixo que você vá e que seja bem feliz,
mesmo sua ausência estratégica tendo consumido parte de minha paz.
Sendo eu também responsável,
deixo, afinal não tem mais jeito e perdemos a sutileza.
E por pouco não perdemos também a delicadeza.
E nem vou querer olhar daqui se alguém conseguiria te fazer tão bem ou tão mal quanto eu. Vou ficar aqui com estas tantas coisas que estou sempre escolhendo,
com uma força que sai das minhas encostas,
com uma aventura desleixada que me acompanha, uma preocupação de astúcias,
tecendo uma vida.
Pode ir, nós sempre seremos felizes.
que você sempre me traga de volta quando minhas forças acabarem-se,
que você seja a justificativa de minha loucura,
a insanidade que reservo aos dissabores, às euforias.
Deixo que você vá e que seja bem feliz,
mesmo sua ausência estratégica tendo consumido parte de minha paz.
Sendo eu também responsável,
deixo, afinal não tem mais jeito e perdemos a sutileza.
E por pouco não perdemos também a delicadeza.
E nem vou querer olhar daqui se alguém conseguiria te fazer tão bem ou tão mal quanto eu. Vou ficar aqui com estas tantas coisas que estou sempre escolhendo,
com uma força que sai das minhas encostas,
com uma aventura desleixada que me acompanha, uma preocupação de astúcias,
tecendo uma vida.
Pode ir, nós sempre seremos felizes.
terça-feira, 23 de março de 2010
Perto dela
Ela chegou,
ela e seus nervos.
O casal sentou-se a beira do banco amarelo, olhou para o ar. Sim, porque trás dele não havia nada.
Respirou-o.
Caminhou sobre ele.
Estes nervos são fortes mesmo, pensei.
Desfilou fazendo-se ver pelos passantes,
Falava baixo com ninguém -era o que se via
Ela podia morar ali que ninguém se incomodaria,
Era o que todos faziam entender,
Ela e seus nervos, moravam onde os ônibus param -já estava vendo-os, todos eles saltando de seus cabelos, braços e cotovelos.
Todos os dias flutuam, conversam, alimentam-se de sonhos emprestados, de tudo aquilo que lhe dão.
Ela toma qualquer imagem que a ofereçam como começo para mais um de seus sonhos, ela come imagens.
Ela dorme embalada por sua próprias canções.
Se tem família?
Tem pessoas que querem não lembrar.
Isto pode ser uma família, uma forma de estar, de vir.
Da forma como vai morrer?
Me parece que de fome,
fome de tanto esperar o trem.
ela e seus nervos.
O casal sentou-se a beira do banco amarelo, olhou para o ar. Sim, porque trás dele não havia nada.
Respirou-o.
Caminhou sobre ele.
Estes nervos são fortes mesmo, pensei.
Desfilou fazendo-se ver pelos passantes,
Falava baixo com ninguém -era o que se via
Ela podia morar ali que ninguém se incomodaria,
Era o que todos faziam entender,
Ela e seus nervos, moravam onde os ônibus param -já estava vendo-os, todos eles saltando de seus cabelos, braços e cotovelos.
Todos os dias flutuam, conversam, alimentam-se de sonhos emprestados, de tudo aquilo que lhe dão.
Ela toma qualquer imagem que a ofereçam como começo para mais um de seus sonhos, ela come imagens.
Ela dorme embalada por sua próprias canções.
Se tem família?
Tem pessoas que querem não lembrar.
Isto pode ser uma família, uma forma de estar, de vir.
Da forma como vai morrer?
Me parece que de fome,
fome de tanto esperar o trem.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Fora
Inventei um novo desafio:
ver de fora.
Remontando cenas acontecidas a partir de um espectro novo
penso que conseguirei sentir de uma outra maneira,
o pensamento, como qualquer outra coisa de mim, também me leva ao êxtase.
Fui e voltei, fui e voltei,
tentei, por vezes, concluir a beleza do encontro como se eu o visse acontecendo,
Cada toque
cada peça a menos
cada minúcia sedutora,
olhos, corpos, bocas
o fim de toda a lucidez,
mas não adianta
não consigo, só consigo enxergar de dentro,
só sei do que se passou aqui dentro,
Não, não sinto muito
Posso dizer que te sinto muito.
ver de fora.
Remontando cenas acontecidas a partir de um espectro novo
penso que conseguirei sentir de uma outra maneira,
o pensamento, como qualquer outra coisa de mim, também me leva ao êxtase.
Fui e voltei, fui e voltei,
tentei, por vezes, concluir a beleza do encontro como se eu o visse acontecendo,
Cada toque
cada peça a menos
cada minúcia sedutora,
olhos, corpos, bocas
o fim de toda a lucidez,
mas não adianta
não consigo, só consigo enxergar de dentro,
só sei do que se passou aqui dentro,
Não, não sinto muito
Posso dizer que te sinto muito.
quinta-feira, 4 de março de 2010
De ser mulher
O lugar mais comum do mês de Março é a mulher.
Eu, como tal, como membro do grupo que cruza a porta nomeada de 'ela', se enxuga em toalha rosa e apreende, desde o berço, a arte de segurar bonecas, tenho de me localizar. Quero estar bem neste lugar-comum.
Mulheres de Chico, chicas de chicas, mulheres de Andrés, de Joãos. Mulheres de ninguém, de cães, da rua, da vida, dos muros, dos sonhos, dos livros. Mulheres de uma luta única, de timbre singular. Cada uma com sua cruzada de perna, com sua jornada diária, com um jeito de olhar, de sentir-se bela, notada, anotada, fotografada, sonhada, apagada.
Papel feminino é coisa sempre remontada, tomaram os pedaços do que era ser mulher e saíram colando um a um. Neste movimento de rejunte daquilo que fora fragmentado, destruído e até queimado, surgiu um ser que se move em gestos. Cada papel recolocado fez pensar que pedacinhos do que se é ser mulher precisam ser pensados, retocados, postos em um formato delicado, autêntico, voraz.
No rejunte, perceberam que somos de ter coisas só nossas, tão particulares que fazem pensar que existem mais do que dois gêneros. Ser mulher é coisa tão nossa que quando se fala parece até que homem é uma outra coisa, sem significância tão grande quanto nós. Tendemos a sermos densas, profundas, meticulosas, sagazes e isto tudo tem ganhado valor num tempo que avança incansavelmente em dizer-se o mais consciente e onisciente de todos.
A essência feminina ocupa o topo de uma lógica que olha para a própria espécie e a louva. O papel da mãe mulher é exigido. Os retalhos de papéis lançados aos ventos, soprados em todos os outros tempos, unidos, formam a única salvação para o que o trajeto tortuoso criou. O fim só se salva pelo o que é capaz de gerar um bom começo. Mulher, mãe, seu jeito de sentir.
O louvor deste mês vai para o feminino, à fertilidade, à força emocional, à composição de ser mulher.
Eu, como tal, como membro do grupo que cruza a porta nomeada de 'ela', se enxuga em toalha rosa e apreende, desde o berço, a arte de segurar bonecas, tenho de me localizar. Quero estar bem neste lugar-comum.
Mulheres de Chico, chicas de chicas, mulheres de Andrés, de Joãos. Mulheres de ninguém, de cães, da rua, da vida, dos muros, dos sonhos, dos livros. Mulheres de uma luta única, de timbre singular. Cada uma com sua cruzada de perna, com sua jornada diária, com um jeito de olhar, de sentir-se bela, notada, anotada, fotografada, sonhada, apagada.
Papel feminino é coisa sempre remontada, tomaram os pedaços do que era ser mulher e saíram colando um a um. Neste movimento de rejunte daquilo que fora fragmentado, destruído e até queimado, surgiu um ser que se move em gestos. Cada papel recolocado fez pensar que pedacinhos do que se é ser mulher precisam ser pensados, retocados, postos em um formato delicado, autêntico, voraz.
No rejunte, perceberam que somos de ter coisas só nossas, tão particulares que fazem pensar que existem mais do que dois gêneros. Ser mulher é coisa tão nossa que quando se fala parece até que homem é uma outra coisa, sem significância tão grande quanto nós. Tendemos a sermos densas, profundas, meticulosas, sagazes e isto tudo tem ganhado valor num tempo que avança incansavelmente em dizer-se o mais consciente e onisciente de todos.
A essência feminina ocupa o topo de uma lógica que olha para a própria espécie e a louva. O papel da mãe mulher é exigido. Os retalhos de papéis lançados aos ventos, soprados em todos os outros tempos, unidos, formam a única salvação para o que o trajeto tortuoso criou. O fim só se salva pelo o que é capaz de gerar um bom começo. Mulher, mãe, seu jeito de sentir.
O louvor deste mês vai para o feminino, à fertilidade, à força emocional, à composição de ser mulher.
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