O lugar mais comum do mês de Março é a mulher.
Eu, como tal, como membro do grupo que cruza a porta nomeada de 'ela', se enxuga em toalha rosa e apreende, desde o berço, a arte de segurar bonecas, tenho de me localizar. Quero estar bem neste lugar-comum.
Mulheres de Chico, chicas de chicas, mulheres de Andrés, de Joãos. Mulheres de ninguém, de cães, da rua, da vida, dos muros, dos sonhos, dos livros. Mulheres de uma luta única, de timbre singular. Cada uma com sua cruzada de perna, com sua jornada diária, com um jeito de olhar, de sentir-se bela, notada, anotada, fotografada, sonhada, apagada.
Papel feminino é coisa sempre remontada, tomaram os pedaços do que era ser mulher e saíram colando um a um. Neste movimento de rejunte daquilo que fora fragmentado, destruído e até queimado, surgiu um ser que se move em gestos. Cada papel recolocado fez pensar que pedacinhos do que se é ser mulher precisam ser pensados, retocados, postos em um formato delicado, autêntico, voraz.
No rejunte, perceberam que somos de ter coisas só nossas, tão particulares que fazem pensar que existem mais do que dois gêneros. Ser mulher é coisa tão nossa que quando se fala parece até que homem é uma outra coisa, sem significância tão grande quanto nós. Tendemos a sermos densas, profundas, meticulosas, sagazes e isto tudo tem ganhado valor num tempo que avança incansavelmente em dizer-se o mais consciente e onisciente de todos.
A essência feminina ocupa o topo de uma lógica que olha para a própria espécie e a louva. O papel da mãe mulher é exigido. Os retalhos de papéis lançados aos ventos, soprados em todos os outros tempos, unidos, formam a única salvação para o que o trajeto tortuoso criou. O fim só se salva pelo o que é capaz de gerar um bom começo. Mulher, mãe, seu jeito de sentir.
O louvor deste mês vai para o feminino, à fertilidade, à força emocional, à composição de ser mulher.
Abriguei-me e vi que algumas telhas mereciam ser quebradas para que eu visse o céu, visse aqueles pontos brancos na escuridão. Esse espaço pretende trazer de impressões a sensações, de versos a avessos.
quinta-feira, 4 de março de 2010
azulado
me perguntaram até onde eu posso voar, eu não soube responder,
era uma criança, era na praia, o Sol batia cruzado, nem tão fraco como poderia pra me fazer...planar.
duas voltas em pensamentos desconfusos depois, respondo:
meu corpo sabe voar de avião, mas eu agora voei até aquela nuvem.
olhos tomam a nuvem nas mãos,
eu também.
riso suave de quem reconheceu que sempre voara.
pés esfregando-se na areia limpa de Mar,
boas lembranças têm cor azul.
era uma criança, era na praia, o Sol batia cruzado, nem tão fraco como poderia pra me fazer...planar.
duas voltas em pensamentos desconfusos depois, respondo:
meu corpo sabe voar de avião, mas eu agora voei até aquela nuvem.
olhos tomam a nuvem nas mãos,
eu também.
riso suave de quem reconheceu que sempre voara.
pés esfregando-se na areia limpa de Mar,
boas lembranças têm cor azul.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Desaglutinada
Comportamento é o ato de demonstrar que algo lhe comporta.
Sua alma cabe dentro de um corpo que reage aos estímulos de forma peculiar, Mesmo tendo que ser igual.
Eis seu comportamento, você mostrando que vive em algo fácil de ser lido, um recipiente que pré-diz seus atos, que torna seus gestos algo comum aos outros do mesmo espaço, do mesmo tempo.
Você comunga com eles idéias, gestos, bobagens, comida, corpos e sua passagem por uma vida estranha.
Um temperamental é quem teve o que o comporta enfisemado. Encheu-se de bolhas de ar que danificam sua operacionalidade, sua respiração.
Um susceptível é quem cabe em todo lugar, qualquer buraco o comporta.
Um relaxado é quem parece caber nos cubículos mais espaçosos, mas na verdade só cabe num cubo, um cubículo desvairado e ventilado.
Eu sou quase enfisemada, cabendo em alguns outros lugares e gosto do cubo ventilado.
Meu recipiente é uma esfera que quica.
Uma delícia o desvario.
Sua alma cabe dentro de um corpo que reage aos estímulos de forma peculiar, Mesmo tendo que ser igual.
Eis seu comportamento, você mostrando que vive em algo fácil de ser lido, um recipiente que pré-diz seus atos, que torna seus gestos algo comum aos outros do mesmo espaço, do mesmo tempo.
Você comunga com eles idéias, gestos, bobagens, comida, corpos e sua passagem por uma vida estranha.
Um temperamental é quem teve o que o comporta enfisemado. Encheu-se de bolhas de ar que danificam sua operacionalidade, sua respiração.
Um susceptível é quem cabe em todo lugar, qualquer buraco o comporta.
Um relaxado é quem parece caber nos cubículos mais espaçosos, mas na verdade só cabe num cubo, um cubículo desvairado e ventilado.
Eu sou quase enfisemada, cabendo em alguns outros lugares e gosto do cubo ventilado.
Meu recipiente é uma esfera que quica.
Uma delícia o desvario.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Pra
Interliga-se sujeitos com artigos,
predicativos com preposições,
sons com silêncios,
paz com pavor, com vapor.
suposições com meias-verdades com supostas
conectivos são cognitivos, tudo o mais o é.
Godard me diz que o que é internalizado importa mais que o externo,
eu sou intimista, gosto de quem é,
intimidade de mim é saber que sou chegada a intimidades,
a credulidades sem credo,
a ritos de passageiros entoando cantarolices bobas
a silêncios íntimos,
caduquice mata-me de medo,
meto medo na sanidade
beiro a um ataque de nervos
só quando,
quase quando, quase nunca
tiram-me a paz
e eu fico vendo
que sou ilha do que está quase parado
apavoro-me com esta pressa
fico parada
querendo sair do canto
e não vai
odeio janeiro
com toda a força da alegria dos outros 11 meses
adoro ver a banda passar
e fico aflita com o que vem depois
mas me conformo
conformizo
relativizo
até ver que do canto tenho que sair,
que de canto ninguém vive pela manhã,
eu adoro as manhãs e pegar 10 minutos de Sol
animam o corpo
Vou para o meio,
encontro todos que não estiverem de canto nem atrás da porta.
Aqui também tem janelas.
predicativos com preposições,
sons com silêncios,
paz com pavor, com vapor.
suposições com meias-verdades com supostas
conectivos são cognitivos, tudo o mais o é.
Godard me diz que o que é internalizado importa mais que o externo,
eu sou intimista, gosto de quem é,
intimidade de mim é saber que sou chegada a intimidades,
a credulidades sem credo,
a ritos de passageiros entoando cantarolices bobas
a silêncios íntimos,
caduquice mata-me de medo,
meto medo na sanidade
beiro a um ataque de nervos
só quando,
quase quando, quase nunca
tiram-me a paz
e eu fico vendo
que sou ilha do que está quase parado
apavoro-me com esta pressa
fico parada
querendo sair do canto
e não vai
odeio janeiro
com toda a força da alegria dos outros 11 meses
adoro ver a banda passar
e fico aflita com o que vem depois
mas me conformo
conformizo
relativizo
até ver que do canto tenho que sair,
que de canto ninguém vive pela manhã,
eu adoro as manhãs e pegar 10 minutos de Sol
animam o corpo
Vou para o meio,
encontro todos que não estiverem de canto nem atrás da porta.
Aqui também tem janelas.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Ode
Funesto, de tão lento e arrogante
Pesado, parado, prejudicial
Pouco caso, para quase tudo,
Quase nada, querendo ser tudo
E era só uma gente, uma delas,
só
Empatando as entradas, as saídas
Dando nó.
Era meio caminho andado, pra nada andar
Meia palha seca, sem puder se queimar
O resto verde, separarei do seco e direi que deve estar vivo,
Estará
Até a palha desabar.
Coqueiro é coisa boa pra se gostar
Pensar que cada aba de seu troco foi folha
É pensar que nada passa à toa,
Tudo é destas coisas que ficam,
mesmo indo.
Pesado, parado, prejudicial
Pouco caso, para quase tudo,
Quase nada, querendo ser tudo
E era só uma gente, uma delas,
só
Empatando as entradas, as saídas
Dando nó.
Era meio caminho andado, pra nada andar
Meia palha seca, sem puder se queimar
O resto verde, separarei do seco e direi que deve estar vivo,
Estará
Até a palha desabar.
Coqueiro é coisa boa pra se gostar
Pensar que cada aba de seu troco foi folha
É pensar que nada passa à toa,
Tudo é destas coisas que ficam,
mesmo indo.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Colando memórias
-De tudo que sou, de toda a minha vida
-Adorarei
-o Verbo
-está no céu, está mar, na extensão do infinito
-Ó verbo
-sopra sobre o que mim está morto
Pronto:
-Ressuscitou.
Palavrear é para todos e para várias direções.
-Adorarei
-o Verbo
-está no céu, está mar, na extensão do infinito
-Ó verbo
-sopra sobre o que mim está morto
Pronto:
-Ressuscitou.
Palavrear é para todos e para várias direções.
Luz e meia
A meia-luz os contornos se sensualizam,
as saídas ficam escuras,
o retorno é coisa não vista,
lençol branco fica amarelo-sombra,
a linha preta que separa qualquer coisa do ar, vira ar,
falta ar,
sobra água,
(suspiro)
Tocaram-se e fizeram de sua meia vontade
o que uma vontade inteira poderia causar,
Mas a ternura também cansa.
as saídas ficam escuras,
o retorno é coisa não vista,
lençol branco fica amarelo-sombra,
a linha preta que separa qualquer coisa do ar, vira ar,
falta ar,
sobra água,
(suspiro)
Tocaram-se e fizeram de sua meia vontade
o que uma vontade inteira poderia causar,
Mas a ternura também cansa.
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