Abriguei-me e vi que algumas telhas mereciam ser quebradas para que eu visse o céu, visse aqueles pontos brancos na escuridão. Esse espaço pretende trazer de impressões a sensações, de versos a avessos.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Uma coisa que tinha
uma coisa em seus gestos,
um sabor encruado,
um medo de pecado, um olhar nada explicado
tinha mãos calejadas,
eram vassoura e rôdo
tinha calos nos pés,
eram passos demais
Era flor até não acabar mais,
Cheiro de flor, anúncio de voz
flor na alma,
flor no cabelo
flor de medo
flores murchas
Seio com textura de flor,
cabelos
e olhos com veludo
Dormia no jardim quando podia
Não gostava da noite,
gosta do dia.
Gasta dias gostando dos dias.
Perde horas junto com papéis,
Tudo leve pra ela, papéis e horas.
Há arrepio nela quando a esperança é vista e quando a morte vem.
Suas palavras pronunciadas eram poucas, se comparadas ao tanto que se fazia com os olhos
Ela queria falar e não sabia pro onde começar,
devolvia presentes quando não gostava
sempre falava quando a alma árdia
ainda hoje é assim.
Ela é ele,
Como poderia?
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
enlace
Fui crescendo olhando o mundo como se ele fosse só aquela rua e a escola, e, também, a piscina do clube, o espelho da academia. Quem olhava via que eu carregava um ar de vergonha e de desamparo, de medo, mas vontade de ousadia, ousadia de vontade, podia-se ver um prazer enorme em chegar e um olhar que queria ver tudo.
Tinha cachos dourados e pele bronzeada, veio comigo. Tinha risada engenhosa e franjas curtas muito mal cortadas, era uma dessas crianças que cortavam gramas, cabelos, papéis. Atendia aos chamados das vozes femininas que enchiam a casa.
Não gostava de escutar críticas, por isso sempre andei na linha, quando não andava caía e doía bem no osso. Adorava a transgressão involuntária que vinha sempre depois das 19h, em cima das árvores, enquanto esperávamos a disposição paterna se deslocar pra nos salvar das areias já escuras e dos monstros imaginados da Escola.
As bananadas doces e brancas das manhãs me faziam crescer, e com um tempo ganhei a altura que sonhava ao abrir a geladeira e querer ver as coisas de cima. Certa vez, quando ainda tinha pouco mais de um metro, abri a geladeira e desejei vê-la de cima. Puxei o banquinho dos áfazeres de pai, e, ainda de geladeira aberta, fiquei a postos mensurando como seria ver aquele depósito gelado dali há alguns anos. Era o dia de querer ser grande.
Não acordei grande, mas fui desejando correr, ir mais longe, ver do alto, ter animais, ter filhos, amores, comer cobertura de bolo, tocar nas estrelas, nunca mais ter piolho.
Desejava nunca me separar das minhas irmãs, nunca ter que pedir no sinal, nunca deixar de ir visitar minha mãe no trabalho, nunca mais cortar o cabelo da próxima boneca -embora admitisse a enorme beleza das madeixas encurtadas, era ruim saber que não se podia voltar atrás. Pensava uma forma de encurtar os cabelos delas sem precisar cortá-los, achava uma pena cabelo de boneca não crescer.
Éramos as três sempre as mais ousadas que via por perto. Queríamos sempre ter em nós a marca da diferença, da criação, da vida bem vivida. Reuniamos em nossa casa, com muita facilidade, uma multidão de meninos empiolhados e cheios de sorrisos pra brincar, cantarolávamos o sucesso das rádios em cima dos muros, como se a vida não passasse dos limites da nossa voz. Não sabíamos o que nos aguardava, mas estavámos sempre certos que a aventura seguinte valeria.
Hoje me dei conta que sou adulta faz tempo e que ser criança foi das coisas melhores já feitas. Não largo a infância porque tenho nela a impressão de que tudo se emenda, que uma canção de verão cantada com força é uma das coisas mais úteis de se viver.
Tem outras coisas também que dão utilidade à vida. Gestos, amigos, risos, invenções, folhas em forma de corações, rodeadas de flores amarelas, tudo na terra cinza, traz à lembrança de uma sôfrega e carinhosa infância, debaixo de um pé que não tinha fim; me lembra que tudo começou em mim junto com aquela raíz extensa que optou livremente por se enraizar e manter-se viva. Aquilo arvoriava o lar simples, complacente e serenado. Nunca, nós, árvore e arvorados, soubemos dos pontos finais e do final das alturas, de alguma forma tudo nos foi ilimitado e burlesco, burlativo, bucólico. Borrávamos até o céu se quisessemos, adestrávamos formigas, cozinhávamos onde queriamos, reinventávamos as regras, recordavamos um passado que não era nosso, faziamos qualquer coisa.
Tenho a sensação de que os primeiros anos nunca saem de nós. Tenho a sensação de que pensar nisso torna os dias mais entregues, com noites bem dormidas, com brincadeira, brinquedo, força e risos.
domingo, 11 de outubro de 2009
Eu vou acordar
eu desejo acordar, digo ao corpo pra ele fazer isso, mas era sonho
não se manda em sonho dormido,
nem em sonhos acordados
Sonhar é coisa incontrolada, descontrolada, sem beira, é isso.
Sonho não pode ter fim,
e nem começo,
Quando se sonha você tem que levar até o fim da vida, não se deixa de sonhar,
quando se dorme e se acorda, não dá pra dizer como se diria sobre um filme, 'o sonho acabou assim...'
eu e o sonho, somos entrelaçados:
vivo em estado de calamidade onírica,
sofro de infinidade de pensamentos,
sou um sonhador
acordo suado, molhado e sem tempo para levar sonho adiante,
sonhos antes de dormir me tiram o sono e me impedem de ver o fim do sonho de quando durmo-acordo.
Sonho, sumo, retorno.
Tudo era devaneio turvo, torto .
a vida recomeça, mas só depois de sonhar de novo que tudo vai tomar o rumo previsto,
que o prumo foi retomado,
é tudo desejo, é tudo força daqui do peito,
a vida toma fôlego,
toma chão, paredes e teto- em breve-,
e a casa tomba
de novo, chão, paredes e teto,
e tombo.
Chão, piso, ladrilho, tudo novo, cheira a víceras dando força.
A ordem: tênis, cerveja e teto
mais uma ordem: beijo, gozo, teto.
Eu quero ver uma vida que não se assemelhe a sonho.
Vida e sonho se confundem
porque só se termina pra se dar um novo começo,
então nada tem fim.
E vida é sim algo pouco real, desde que se queira.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
SER-VER-LUZ
Cruzei as ruelas salgadas do Serviluz e do Titãnzinho há alguns dias, nunca estive por aquelas bandas e fui por lá pra saber que lugar é esse que tem nome de luz e também apelido cartinhoso de gigante. Fui. As ruas são escuras e me lembram qualquer periferia que já visitei no meu Estado, sou daqui do Ceará. Ruas que são para pessoas mais do que para carros, são para o esgoto, para os cachorros, para as pernas que andam tranquilas. Ruas que confirmam o pouco investimento que se faz na periferia. Trafegando nelas você sente o cheiro do mar e a maresia chegando na pele. Mas eu vi outras coisas. Eram pessoas saindo de suas casas, indo em direções diversas, mostrando que aquele lugar é intimo delas,. que ali se vive segundo uma lógica própria condicionada pelo lugar, pelo cheiro, pelas circunstâncias que o tornou lugar. Elas estão ali fincadas como as pedras que calçam o chão que pisam. Não senti nenhum medo, como minha mãe imaginou que eu houvesse sentido, pelo contrário, me senti segura, por que as pessoas não demonstravam sentir medo. Aquele conjunto de gestos entrava em contradição com aquilo que sempre vi sendo noticia de jornal. Vi naquela noite pessoas habitando um lugar, relacionadas ao mesmo e logo por trás das casas estende-se o mar. Eis um fator geográfico que torna esta forma de viver intrigante e digna de ser violentada. O mar é para quem pode pagá-lo.
A irônia: Quem não pagou pelo mar, quem não traz benefícios, nem suposta beleza a cidade, não pode ver mar, não pode tomar banho no mar, não pode se relacionar com o mar, imagine se pode morar do lado do mar? Estas pessoas devem ir pra um lugar onde elas poderiam ter casas melhores, mais organizadas, até mais bonitas, um lugar longe onde elas não possam ser vistas e assim vivam bem, tentando suprir seus deéficits bem longe. Longe de seus trabalhos, com condições de circulação ainda a se criar, longe de hospitais, longe do aparelho urbano (afinal, esse povo não vai mesmo pra teatro), elas fazendo isso deixam livre o lugar que ocupam durante décadas, onde contruiram suas histórias, suas famílias. E lá deve-se construir um grande estaleiro que trará benefícios inúmeros a todo o Estado. Estaleiro este que construirá de forma asseada e modernissima belos e enormes navios.
Quem quer um estaleiro?
Navios esses que navegarão pelos mares do primeiro mundo, que já descobriu que construir navio é uma coisa despendiosa, mas necessária. Despendiosa porque sujam tudo, tanto visualmente, quanto ecologicamente, resumindo é uma lambança. Pra continuar a se produzir navios e também, é claro, dar emprego a população de países menos abastados, acharam conveniente vender a idéia que em nome do desenvolvimento, os países pobres, assim como as pessoas pobres, deveriam construir navios. Então alguns Estados de um mesmo país resolveram achar que isto é verdade: "navio é tecnologia, desenvolvimento", passaram a brigar entre si e fazer qualquer coisa pra que a empresa construtora do desenvolvimento aportasse em uma de suas praias. A caprichosa empresa de barcos enormes acha que ir pra Paracuru ou pra Pecém ou até para o Pirambu(imagina?) sai caro, querem economizar ou querem ganhar mais uns millhares em cima de nossa gente? Eles querem é lucro.
O consenso sem bom-censo (pra variar):
Enfim, dizem que só ficam no Ceará se for pra ser do lado do Porto do Mucuripe, porque ali já tem tudo que é encanamento, avenida, cais e ainda tem uma bela vista da cidade. O governo diz aos donos do estaleiro: "vocês ficam, constroem esses 20 navios, empregam uma multidão de famintos por um tempo, ali nas redondezas o que não falta é gente, não pagam alguns impostos, aqui não tem lei ambiental que funcione, daí vocês podem sujar, mas tragam, por favor, o desenvolvimento a este Estado carente, nós precisamos mais do que qualquer outro. Nós atendemos todas as suas exigencias, todos os seus apelos, soltaremos fogos quando chegarem na terrinha do sol. Ah. Não querem? Então faremos uma coreografia especial com os policiais do Ronda em seus patinetes. Ah. Não querem? Nós inventaremos uma homenagem a vossa riqueza. E quanto a favelinha posso lhe dizer já está tudo certo, aquelas pessoas vão morar num lugar bem melhor, elas não vão nem lembrar que um dia moraram ali."Como ninguém pergunta nada a pobre, impõem e eles que concordem senão alguém morre, disseram: venham! E mais uma vez uma das tantas agruras de um governo inconsequente, cego e desprovido de bom-censo, está às vésperas de tornar-se fato consumado.
E aí, vamos deixar?
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
A 03 e o Individualismo
A Rua é estreita e cheia de movimento. Quando olho para onde os carros sempre vêm, vejo vir poeira cor de asfalto, carros com pouca pressa- os mais agoniados, e não necessariamente apressados, sempre buzinam- ônibus desajeitados e ciclistas com seus bonés.
A 03 demora ou chega depressa. Quando chega nem pára, já subi.
No dia de ontem ela veio por entre uma mágica nuvem de fumaça-negra, parecia ter vindo do inferno para me buscar.
Entrei, desejei bom-dia-pouco-correspondido. Entreguei a nota de dois reais. Recebi duas idênticas moedas amarelas, de troco. Foram pro bolso, achar bolsinha naquelas condições era pedir pra ser socorrida na próxima curva por um companheiro de luta e em seguida ter que superar os olhares curiosos, além de ter de lidar com o mais novo hematoma.
Avistei um acento disponível no ambiente mais confortável do pequeno recinto ambulante. Lá atrás.
Lá atrás salto sentada, não tenho onde segurar, Lá atrás, nunca cabe todos os cinco passageiros nos cinco bancos, Lá atrás pega mais sol, em consequência disto, meu frescor pós banho -sim, eu tenho direito a isto- é eximado em instantes.
Lá atrás fui até chegar à Reitoria.
Passamos coletivamente, como sempre, pelas tumultuadas paradas da Praça do Coração de Jesus, do Carmo, da Bandeira, Padaria, Carandiru, Farias Brito, Aqui, Cefet (a da Farmácia, tão querida, foi abolida; ainda não entendi se porque a Farmácia adiantou-se 50 metros na [Rua]Senador Pompeu ou se pela nova lei, bem cumprida de Topic usar somente parada de ônibus).
A do 'Coração', os aventureiros novos de cada dia nunca a visualizam, fato que provoca a explicação, em tom aveludado e livre de toda a pressa, daqueles que chamam trocador (o plural desta palavra é ela mesma, ou seja, os trocador)
: O Coração de Jesus é ali ó, dobra a esquina, tu vê lá a Igreja.
(gestos e mais gestos acompanham a frase)
Sacudindo-me furiosamente, em função do ímpeto velocista do motorista indo de encontro aos incontroláveis buracos da charmosa Clarindo de Queiroz,
segurando as avolumadas apostilas dos vários estudantes do Farias Brito, vou normal trafegando e trafegando, tentando esquecer que a 03 demorou mais que o 13 de Maio/Rodoviária o que induziu-me a um atraso involuntário. Nem é bom lembrar que há música no cubículo, música frenética, tráfego frenético, minha memória que não lembre depois que música era aquela.
Antes de chegar à Reitoria, acho interessante comentar sobre um belo gesto que existe e tão bem se repete dentro das apressadas 'Topics'
, o movimento de segurar objetos alheios.
Nos ônibus isto acontece, no entanto, um típico passageiro de topic, não sei se pra lembrar de sua condição humana soterrada pela sequência de agruras, quando acometido pela caridade da van ele é mais cordial que sua própria média,
vá entender.
A topic é um espaço de transformação temporaria de indivíduos.
Quando o passageiro, que ajudou o parceiro a não tombar sorrateiramente com os beiço na porta, desce do cubículo ele pensa:
É melhor ajudar antes que depois.
Entre e sinta-se em casa. Eu desço aqui.
domingo, 19 de julho de 2009
Vc
Vc sabia que nada era pra sempre, que há muito na vida para tornar-se experiência e que um dia tudo se transfomaria em dor ou em esquecimento. Vc sempre gostou mais da boa lembrança.No entanto, seus foram os dias que fizeram umas outras coisas virem.
Vc, sábia desde os primeiros silêncios, pôde provar do âmago da dor e da aventura insensata, feliz vc era, sempre fôra. As horas não lhe comandam e poucas regras lhe sustentam, vc é da noite e de quando o dia lhe quer.Falta-lhe um eixo que lhe atrele a uma linha reta, uma compreensão menos ingênua destes mundos nada bobos. Falta-lhe enganar menos o mundo com essa segurança que finge ter, sabe-se no minuto logo: não sabes aonde pisas e mesmo assim convence que não custa quase nada ser o que se é.
Vc tem cheiro de liberdade, de hortência ao meio-dia, e prudência que quer ser tudo. Não tens nada disso, pelo fato de ser mais um dos que nada detém. O mundo se transmuta como o silêncio do ar em movimento e ele lembra que nada é de todo, que pouco é para muitos.Essa impetuosidade de frênesi que é tua maior benção, contrange o mundo dos que querem paz, vc é da queda, da felicidade que esta consegue ter, porque ela automatiza o soerguimento, ela autoriza o muito ser. Esta crença de que o naufrágio é algo certo para todos aqueles que se aventuram em águas do desconhecido, promove uma comodidade em seres exatamente o que és e me mata de medo e de pavor. Vc se mistura com aquilo que deseja ser, com aquilo que já foi e com o medo de tudo que podes vir a ser.
Vc sabe envolver, mas não consegue convencer porque desiste fácil da ousadia e poderia até saber voltar atrás, mas desiste de novo em medos escancarados e fica estática em iminência do que julgas precipício.Mas sei que vc não é de parar ou de ter uma paz rarefeita. Sua paz se move pelos pêlos do seu avesso e ela lhe convence a ser qualquer coisa que queiras.
Vc é qualquer pessoa que camufla, o que é para perdurarem ao seu lado. Vc devia ser e também não devia ser quase nada do que é. Mas vc é, isto pode importar.
sábado, 4 de julho de 2009
As vezes da dor
Não lembrava da dor, hoje eu lembrei.
As vezes que houveram dor latente tinha alguém me abrigando, eu sempre tive muito abrigo, por que foram muitas as vezes da dor.
Meu corpo sabe o que é sofrer, agora tenho que me orgulhar porque já doeu muito,
pra dar sentido, talvez.
Sempre soube que a dor une, ela unia meus ossos,
talvez todas elas tenham feito isto tudo ser assim, de alguma forma indissolúvel.
Dor que tem como sarar é remediada. Dor que não passa é aquela da separação.
Nunca deixaram eu partir, eles temem que eu não volte.
Eles sabem que eu sobrevivo por um razão ilógica e óbvia, também.
Aprendi a espera da cura; aprendi, também, a reconhecer quando uma coisa é muito maior que eu.
Tem algo que sempre me diz que não se vive em vão, porque não se morre em vão. Não se quase morre em vão.