segunda-feira, 29 de abril de 2013

para lugar nenhum.

Poesia é texto de quem não quer ser alcançado, somente lido.
Poético pode ser aquilo que não quer ser concreto.
É vontade de quem quer fazer do sentido mera afirmação de um sisudo qualquer.

Escrever pode ser para a divagação e esta é a aquilo que defino como versão.
Os versos têm neles uma brincadeira própria de quem escreve,
Só a mente que pilota o teclado é capaz de saber o desafio.
A métrica sai torta porque o intuito é um novo arranjo, com enfeites velados.

Quem se aventura a ler, deve saber que é alguém estranho,
Pois perde seu tempo com algo que não é rentável nem faz muito sentido.
Por isso que muitos não leem. Não esses escritos que, como todos, não levam a lugar nenhum.

domingo, 21 de abril de 2013

Filhos do coração

Viviam de comparar-se. Suportar as análises era difícil até para a pele dona dos olhos que julgavam.
Os ouvidos de quem estava perto não conseguia lidar com aquilo. E os corpos sujeitos, avizinhados, àquela lógica disparavam na mesma direção.

A autonomia da própria vida era roubada, a satisfação teria de ser dada para si mesmo e para o outro que julgava-se habitar os lados de cada um. A vida escrava dos ouvidos, olhos e bocas tornava-se curta e longa, ao mesmo tempo.

Já não se sabia a quem devesse responder. Aquilo era a doença e acreditava-se que tudo que viesse dali poderia ser chamado de amor. Poderia até ser, porque de amor andam chamando tudo e qualquer coisa.

Era perceptível os transgressores. Eles eram os mais comparados e, naturalmente, os mais mencionados. Era a vida pras respostas mais deliciosa de se olhar. Encher os lábios de palavras de profundidade e soberania só era possível se uma dupla pareasse e um alvo fosse ruim o suficiente. Os transgressores vinham com suas vidas, o bem mais precioso que tinham, dar voz a mente absoluta dos que conquistaram coisas que o tempo costuma tornar possível.

Era assim, assim que as a violência ficava morando dentro das casas, dentro das mentes. Destruindo a maneira de se ver, as relações de afeto, a esperança tranquila de corações filhos da misericórdia divina.

sábado, 23 de março de 2013

Instintos da Varjota

Olhávamos os apartamentos da zona nobre da cidade. Dois cigarros e dois fios de fumaça, um em cada mão. Eram duas bocas, a minha e a dela. Contudo, nem mãos, nem bocas era o que importava naquele momento, os corpos estavam resguardados para as memórias. A conversa era de duas amigas. Tudo anda tão diferente que esta última informação não diz mais nada.

As cavidades dos rostos mostravam o cansaço que resolve imperar nas vidas. Cansaços do existir, das tentativas, das desistências. A felicidade também não sabia durar em canto nenhum, não era reconhecida por muito tempo. Era isso o que olhar para o alto dos edifícios fazia pensar.

Não lembro mais o que se falava, não lembro de uma linha sequer. Minha mente tem esse hábito de não ter memória para as palavras. Tenho lembrança dos sentimentos. Sentia-se, disto eu sei, que a infelicidade está alastrada, que o conforto proporcionado pelo dinheiro não é transformado necessariamente em ônus, ele implica, inclusive, em desconfortos diversos.

O bolinho de bacalhau estava crocante. Coca Zero dizendo que Quanto Mais Bonito Melhor me fazia lembrar um amor que nunca passou. Memórias espaçadas com vazios. A impressão era a de que o corpo não anda bem, de que paz vem de dentro e que nunca vai fazer muito sentido aguentarmos ter uma vida tão sofrida.

Respondendo ao estímulo dos afetos, pensamos muito, pensa-se bem. A função é apenas ser, nada mais. O exercício pessoal naquele momento era dos mais instintivos: sentar e comer. Nada mais tão animal do que matar a fome. Faz pena pensar agora que as coisas não conseguem mais serem dissociadas do nosso entorno. Não estávamos ali para sentar e comer, fomos para o alívio, era aquilo que devoraríamos a seco, caso fosse colocado diante de nós. Os instintos na Varjota são outros.


terça-feira, 12 de março de 2013

Não é todo conforto que é privilégio, nem todo desconforto que merece deslouvor.
Entendemos o contrário, mas desconforto, sem ser a ausência dos meus direitos é bom e eu gosto.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

100 anos

Existe uma coisa que não podemos sem a arte. Viver.
Poderia ser possível caso não sofressemos, não convocassemos mágoas, lástimas e lágrimas. Caso fosse permitido viver sem belezas viveríamos sem suspiros, secos, com copos de água e coca-cola quando fosse pra esquecer de tudo na hora do almoço.
Caso viver fosse normal, não inventaríamos nada. Morrer é normal, viver é mágico.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

...Pode passar.

Peço a mim algumas licenças. Todos os dias. Que os outros não cheguem até mim achando que têm direito de tomar-me o que é meu, meu direito a sentir-me bem, nem de uma forma ou nem de outra. Que nenhum formato de sorriso tenha o poder de mudar o meu. Eu sei, não vai ser possível. Que as distrações não me tirem o direito de concluir minhas tarefas. Acredito que existem mais direitos do que deveres. Acredito que deveres não são deveres, eles são direitos, também. Acredito nos prazeres carnais, fáceis, e nos difíceis. Acho até que acredito nos mais difíceis, mas não sei muito lidar com eles. Na verdade, não sei lidar com nenhum. Viver, sorrir e esquecer são as coisas mais essenciais.
Peço licença para beber um pouco de água, só um pouco mais.

domingo, 8 de julho de 2012

Valores

Porque você anda armado? Nossa, como alguém pode perguntar uma coisa dessas? Ora, eu gostaria muito de sobreviver... E tem acontecido de você andar armado... Sim, sempre ando com um revólver. Este é um princípio que carrego comigo. Um revólver, um princípio. Não entendo, vejo grandes diferenças entre um e outro. Você leva o revólver e o princípio carregados de munição? Não, princípios dispensam munição. Princípios são valores. Certo. Já sabia. Valores de que mesmo? De sobrevivência, né? É.