sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sobre Fortaleza

Aguentei tua alma murmurando em meus ouvidos por tanto tempo
que deixei de entender de almas simples
as encontro e logo as rejeito

Tua fronte degenerada só me demonstra que o teu íntimo produz deturpações por ele mesmo

Perdoando o mundo para cativá-lo
Grune alto se ele não te perdoa
És o bicho mais ardente que a terra já fez
Se fostes feito de areia nunca ia ser carregado pelas forças da natureza

Fortaleza não cai com o vento,
esta emoção toda que levas e trazes com as expressões que são sem esperas
são rápidas e de supetão
promovem os sulcos do teu rosto, alegando que és mais vivo que muitos dos vivos

Teu corpo poderia enroscar-se em qualquer lugar
Mas a tua alma é presa em firmamentos que puxam dos teus pés
à medida que qualquer palavra pode lhe colocar em cheque.

És das criaturas amarradas, por barbantes enlinhados, ao chão
Desfazer o nó poderia ajudar-te, mas eu não saberia o que fazer depois.

sábado, 29 de janeiro de 2011

gestual

No lugar onde vivi por muitos anos, tudo, pra se tornar ação, precisava fazer algum sentido. Caso não se cumprisse a prerrogativa, algo muito grave poderia acontecer com aquele que agia. O que acontecia, na verdade, era que esta era uma crença e ninguém sabia ao certo se descumprí-la implicava em qualquer sanção das partes divinas.

O tempo passou muito até que um belo rapaz ameaçou os sentidos de todas os gestos. Ele veio sem sentido parar ali. Era vivo como todos os outros, mas alegava que não sabia ao certo como chegara no vilarejo. Sua primeira ameaça, um anúncio de importunação a uma suposta ordem do lugar.

O rapaz percebeu que a ficção daqueles vivos era diária e que o que se dizia era para dar uma aparência qualquer ao que se vivia. Os parentes, quando se viam, perguntavam um ao outro dos sentidos dos atos, era a forma de se dizer como tudo deveria aparentar. Os encontros eram aulas de conduta. Mas a prática era somente aquilo de todas as manhãs até os finais do dia, somando-se ao sono das madrugadas, era aquilo de fazer tudo para que alguma coisa fosse feita no final.

Jovem como um cacho de bananas verde, o rapaz, não entendia nada daquilo, viera de um lugar onde as coisas são grandes e nada fazia sentido. Ele me contou certa vez, que nas ruas as pessoas são muitas, em seu lugar, e elas são desconhecidas e vivem, vivem cheias de intuitos. Elas agem, crescem, reproduzem-se e morrem como se pudessem ter sentido, elas são enterradas mortas, pensam purificar-se depois de cometerem alguns delírios e agem somente quando podem, sabendo inteiramente a razão de cada coisa. Por saberem demais, descobriram que quase nada faz sentido. Muitas delas acham-se desprecisadas de finalidade, outras morrem-se por acharem que desprecisam da vida. Fui daqui para lá e não sei, não sei mais de nada.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Botton

A vontade de produzir um tecido bonito para ornar uma pele que anda meio sem brilho veio com um fim de tarde meio cinza, metade azul
Tomei vários resumos de idéias, umas conclusões trágico-cómicas daquelas que tenho em minhas trajetórias diárias de lido familiar.
Percebi alguma coisa antiga, das mesmas que vivo percebendo
Lembrei-me de algumas ruas cariocas e aquele meu tipo de solidão feliz desacostumada com o piso de outro ar.
A impressão é que os círculos que fiz eram pequenos e constantes, andava em círculos pequenos.
Estava presa a umas duas ideias que me faziam estar no chão e estar circulando.
Ainda havia tempo, antes que inventassem as cordas das pernas e das mãos, eu ainda poderia me fazer desamarrada. Era só um pouco de força, um pouco de água, um médio de paciência, algumas conclusões de adeus. E?
Já poderia produzir um novo conjunto de impressões. Ao menos teria logo em breve minha alma lavada e um ornamento novo para me enfeitar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

cancro

Daqui de cima vejo vidas arruinando-se,
podia antes ver tudo que quisesse,
até o que não existe, invisível.
Teve um dia no qual algo similar a uma compreensão acertada inventou de ser e eu não fui mais.
Fiquei no lugar das folhas mortas, daquelas nem varridas pelo vento,
das levadas pelas vassouras urgentes.
Estava varrida,
louca varrida, achando varrer os loucos,
achando-me forte, estava eu era dura,
endurecendo,
virando húmus.
Nada morre.

domingo, 16 de maio de 2010

passando

As nuvens voam de leste para oeste,
elas vão, ficam pairando,
são pouco óbvias, mesmo sendo sempre brancas, mesmo cumprindo o mesmo itinerário todos os dias, mesmo eu sabendo que elas são um pedaço do Mar que resolveu voar.

Elas estão voando, sentem-se paradas, pairadas,
são apenas um amontoado que fica vermelho quando a noite se acende.

A impressão que tenho é que elas não são nada,
não as toco,
só as vejo daqui de longe, no horizonte delas,
elas não me vêem, porque quem tem olho é furacão,
dizem que a Lua, quando é cheia, também tem olho,
E o olho da noite tem insônia
e eu, também

A nuvens são brancas, de rota certa e de forma e final fugazes e sem previsão,
Penso que nem tudo que é nuvem precipita,
eu digo que tudo que é gente, sim.

domingo, 9 de maio de 2010

Maria das Dores

A dor causa na boca um gosto de espera,
Há em todas as dores uma forma de anseio incontrolável
que o tempo passe e que se vire logo,
que se pise logo o momento seguinte.
No delírio,
chega-se a querer uma outra forma de dor,
isto é o mesmo que desespero.

A dor não chega a ser apressada,
ela depende de seu dono, o obedece,
Para que ela passe logo
se tem que olhar para o lado, comparar, comparar sentimentos,
tem que olhar pra trás,
produzindo uma espécie de nostalgia que faz gostar do ruim e do que passou
e não daquilo que tinha até cor.
A vontade é de comparar,
se possível for, comprar e tomar um remédio pára-dor.

Dores podem, por vezes, chegar com pressa,
como se quisessem tomar uma vida, ver sangue,

Dor passa, é substituída e finge que nunca existiu.
Sua passagem torna a vida, de certa forma, heróica,
Fazendo fingir que é eterna.
Dor lateja e engana.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Jerimum

Arreganhou as narinas naquela gargalhada. Porque escolhera ser pessoa contida, achou que seria insuportável que alguém visse que suas narinas eram tão largas, encostou sua mão em seus lábios, de modo que seu nariz permanecesse encoberto tempo suficiente para as narinas fecharem-se.

Aquilo era um riso, uma forma de fazer soar a espontaneidade, uma maneira do senso mostrar-se descontroladamente, o senso estava a olhos vistos, as narinas não podiam estar.

Jerimum era como o chamavam. Era um apelido que fazia mais sentido do que seu próprio nome. Seu nome era Ervasir. Seu pai que havia morado 6 meses nos Estados Unidos, conheceu sua mãe, que sempre fora uma setentista inveterada, casaram-se numa cerimônia mais experimental do que qualquer outra coisa e unidos resolveram viver numa harmonia meio frouxa. Eles tinham um cão, sempre era pincher.

Jerimum era rapaz descontraído, de escolher muito o que fazer, escolhia muito bem os gestos, os livros, os alimentos, as bocas que conseguiria abocanhar. Seu apelido era tão antigo que nem lembrava direito se a história a seu respeito tinha mesmo acontecido.

Diziam as crianças que ele parecia as abóboras cortadas para o dia das bruxas importado. Os meninos viam aquelas abóboras na televisão, nos livros, em lugares que eles não conseguiam dizer onde e achavam semelhança entre Ervasir e o formato de monstro leguminoso. Ervasir não demonstrava fúria diante da brincadeira em si, seu furor ficava para uma discussão incomum à sua idade, à sua origem, aos seus poucos dias. Ele queria sempre deixar claro que aquilo não era uma abóbora era na verdade um jerimum. O apelido pegou, os meninos não entendiam muito bem sua insistência em diferenciar coisas iguais e nem entendiam que ele queria na verdade dizer que as duas coisas eram uma só, eram a mesma coisa, que os meninos estavam errados em chamar de abóbora uma coisa que era também o conhecido jerimum.

Ervasir, sempre medindo seus gestos, sempre ensinando a se fazer o certo, cresceu sendo Jerimum. Chateando-se com coisas incompreensíveis, seguiu.

O vi dia desses, coçando seus poucos pelos dos braços como se escolhesse tocar sua pele de forma suave, encravar suas unhas bem cortadas na medida exata da sempre leve coceira se dar por coçada.