Viviam de comparar-se. Suportar as análises era difícil até para a pele dona dos olhos que julgavam.
Os ouvidos de quem estava perto não conseguia lidar com aquilo. E os corpos sujeitos, avizinhados, àquela lógica disparavam na mesma direção.
A autonomia da própria vida era roubada, a satisfação teria de ser dada para si mesmo e para o outro que julgava-se habitar os lados de cada um. A vida escrava dos ouvidos, olhos e bocas tornava-se curta e longa, ao mesmo tempo.
Já não se sabia a quem devesse responder. Aquilo era a doença e acreditava-se que tudo que viesse dali poderia ser chamado de amor. Poderia até ser, porque de amor andam chamando tudo e qualquer coisa.
Era perceptível os transgressores. Eles eram os mais comparados e, naturalmente, os mais mencionados. Era a vida pras respostas mais deliciosa de se olhar. Encher os lábios de palavras de profundidade e soberania só era possível se uma dupla pareasse e um alvo fosse ruim o suficiente. Os transgressores vinham com suas vidas, o bem mais precioso que tinham, dar voz a mente absoluta dos que conquistaram coisas que o tempo costuma tornar possível.
Era assim, assim que as a violência ficava morando dentro das casas, dentro das mentes. Destruindo a maneira de se ver, as relações de afeto, a esperança tranquila de corações filhos da misericórdia divina.
Abriguei-me e vi que algumas telhas mereciam ser quebradas para que eu visse o céu, visse aqueles pontos brancos na escuridão. Esse espaço pretende trazer de impressões a sensações, de versos a avessos.
domingo, 21 de abril de 2013
sábado, 23 de março de 2013
Instintos da Varjota
Olhávamos os apartamentos da zona nobre da cidade. Dois cigarros e dois fios de fumaça, um em cada mão. Eram duas bocas, a minha e a dela. Contudo, nem mãos, nem bocas era o que importava naquele momento, os corpos estavam resguardados para as memórias. A conversa era de duas amigas. Tudo anda tão diferente que esta última informação não diz mais nada.
As cavidades dos rostos mostravam o cansaço que resolve imperar nas vidas. Cansaços do existir, das tentativas, das desistências. A felicidade também não sabia durar em canto nenhum, não era reconhecida por muito tempo. Era isso o que olhar para o alto dos edifícios fazia pensar.
Não lembro mais o que se falava, não lembro de uma linha sequer. Minha mente tem esse hábito de não ter memória para as palavras. Tenho lembrança dos sentimentos. Sentia-se, disto eu sei, que a infelicidade está alastrada, que o conforto proporcionado pelo dinheiro não é transformado necessariamente em ônus, ele implica, inclusive, em desconfortos diversos.
O bolinho de bacalhau estava crocante. Coca Zero dizendo que Quanto Mais Bonito Melhor me fazia lembrar um amor que nunca passou. Memórias espaçadas com vazios. A impressão era a de que o corpo não anda bem, de que paz vem de dentro e que nunca vai fazer muito sentido aguentarmos ter uma vida tão sofrida.
Respondendo ao estímulo dos afetos, pensamos muito, pensa-se bem. A função é apenas ser, nada mais. O exercício pessoal naquele momento era dos mais instintivos: sentar e comer. Nada mais tão animal do que matar a fome. Faz pena pensar agora que as coisas não conseguem mais serem dissociadas do nosso entorno. Não estávamos ali para sentar e comer, fomos para o alívio, era aquilo que devoraríamos a seco, caso fosse colocado diante de nós. Os instintos na Varjota são outros.
As cavidades dos rostos mostravam o cansaço que resolve imperar nas vidas. Cansaços do existir, das tentativas, das desistências. A felicidade também não sabia durar em canto nenhum, não era reconhecida por muito tempo. Era isso o que olhar para o alto dos edifícios fazia pensar.
Não lembro mais o que se falava, não lembro de uma linha sequer. Minha mente tem esse hábito de não ter memória para as palavras. Tenho lembrança dos sentimentos. Sentia-se, disto eu sei, que a infelicidade está alastrada, que o conforto proporcionado pelo dinheiro não é transformado necessariamente em ônus, ele implica, inclusive, em desconfortos diversos.
O bolinho de bacalhau estava crocante. Coca Zero dizendo que Quanto Mais Bonito Melhor me fazia lembrar um amor que nunca passou. Memórias espaçadas com vazios. A impressão era a de que o corpo não anda bem, de que paz vem de dentro e que nunca vai fazer muito sentido aguentarmos ter uma vida tão sofrida.
Respondendo ao estímulo dos afetos, pensamos muito, pensa-se bem. A função é apenas ser, nada mais. O exercício pessoal naquele momento era dos mais instintivos: sentar e comer. Nada mais tão animal do que matar a fome. Faz pena pensar agora que as coisas não conseguem mais serem dissociadas do nosso entorno. Não estávamos ali para sentar e comer, fomos para o alívio, era aquilo que devoraríamos a seco, caso fosse colocado diante de nós. Os instintos na Varjota são outros.
terça-feira, 12 de março de 2013
terça-feira, 30 de outubro de 2012
100 anos
Existe uma coisa que não podemos sem a arte. Viver.
Poderia ser possível caso não sofressemos, não convocassemos mágoas, lástimas e lágrimas. Caso fosse permitido viver sem belezas viveríamos sem suspiros, secos, com copos de água e coca-cola quando fosse pra esquecer de tudo na hora do almoço.
Caso viver fosse normal, não inventaríamos nada. Morrer é normal, viver é mágico.
Poderia ser possível caso não sofressemos, não convocassemos mágoas, lástimas e lágrimas. Caso fosse permitido viver sem belezas viveríamos sem suspiros, secos, com copos de água e coca-cola quando fosse pra esquecer de tudo na hora do almoço.
Caso viver fosse normal, não inventaríamos nada. Morrer é normal, viver é mágico.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
...Pode passar.
Peço a mim algumas licenças. Todos os dias. Que os outros não cheguem até mim achando que têm direito de tomar-me o que é meu, meu direito a sentir-me bem, nem de uma forma ou nem de outra. Que nenhum formato de sorriso tenha o poder de mudar o meu. Eu sei, não vai ser possível. Que as distrações não me tirem o direito de concluir minhas tarefas. Acredito que existem mais direitos do que deveres. Acredito que deveres não são deveres, eles são direitos, também. Acredito nos prazeres carnais, fáceis, e nos difíceis. Acho até que acredito nos mais difíceis, mas não sei muito lidar com eles. Na verdade, não sei lidar com nenhum. Viver, sorrir e esquecer são as coisas mais essenciais.
Peço licença para beber um pouco de água, só um pouco mais.
Peço licença para beber um pouco de água, só um pouco mais.
domingo, 8 de julho de 2012
Valores
Porque você anda armado?
Nossa, como alguém pode perguntar uma coisa dessas? Ora, eu gostaria muito de sobreviver...
E tem acontecido de você andar armado...
Sim, sempre ando com um revólver. Este é um princípio que carrego comigo.
Um revólver, um princípio. Não entendo, vejo grandes diferenças entre um e outro. Você leva o revólver e o princípio carregados de munição?
Não, princípios dispensam munição. Princípios são valores.
Certo. Já sabia. Valores de que mesmo? De sobrevivência, né?
É.
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