terça-feira, 2 de junho de 2009

Deslocada

Forças vêm de poros.
colapso vem do teto e dos ouvidos:
paredes pressionam a alma
,e os sentidos
-ouvidos ou vistos-
avisam o que pode ser;
mal de louco é enxergar sozinho, com olhos fechados, também,
o paradoxo da loucura é confiar mais no que toca e ao mesmo tempo não ter tato.

Vamos aos exemplos:

Em frente ao número 69 vi moça singela deslocar um braço, domingo à noite. Ela soube se colocar.
Aqui na rua nunca vi dessas coisas não. Sem querer eu ri quando vi a cena.

Já vi na esquina uns travestis, eles sempre estão lá,
Já vi o louco querendo derrubar o portão, o do 87,
Já vi a moça do 69 sair voando,
Eu nunca mais vi aquele cão preto de pelagem brilhosa, era de enxer as vistas.
Eu nunca mais vi a solidão da noite, como era de se esperar.
É de onde tem teto e parede que vem o silêncio. A rua fala, ela é porosa.


O violino, nunca mais ouvi,
Nem o apito dos vígias da noite,
Vi fusca cor de pele grunindo para andar e pouco espaço para o dia.
Sinal de que há noite sendo acordada.

Força vem de sentir o vento vir do alto trazendo essas nuvens que lavam.

Nada é igual depois deste 'inverno' sem fim;
Isso não clarifica os exemplos?
Quis falar de força, de poros e de que quase tudo é igual.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sobrepondo

Coloquei primeiro um nome,
depois assobiei bem alto, desde os 8 anos estou aprendendo.

apaguei uma vela bem em cima do papel,
cuspi com tudo que vinha de dentro

joguei areia, pisotiei.

O escarro era para fazer-se ir o que vem lá de dentro
A pisadela era para não ter passos da posteridade amargados
o assobio era para espantar maus espirítos.

a vela foi antes apagada pra chama da paixão se ir
antes da mandinga ser desfeita pelo mesmo fogo, agora renovado.
O que desfez papel foi chama de amor durmido dentro de mim,

Como pão durmido é duro e dormir pra mim nunca foi fácil,
preciso de chama forte para sempre me acender.
Acordar também não é meu forte,
meu forte é voar.

Tantra ou Sobre a Alteridade

Eu estive certa até perscrutar olhos que não sabiam o que dizer. Ou, talvez, antes, quando ainda no corredor estreito, abancada após mais uma aula, encontrei solução que fala. Foi isso, a junção dos dois é a explicação de minha não retaguarda. Nem entendo porque quero explicar que não me resguardei, eu sou mesmo do combate, da linha de frente, do rebuliço.





Choveu, como não era de se esperar. Conversei em silêncio sobre alteridade- o outro inseparável de nós. Me espalhei no aconchego torto da sala pintada. Refleti ouvindo The Doors, olhando paragens de tintas sob a tutela de mentes desgovernadas. Aquilo é poesia vertical, por que não? Conversei sobre a pigmentação alheia e sobre o canto dos pássaros. Chovia muito lá fora, já era 20h. Vi uma bunda pintada na parede e pensei que seria hora de telefonar. Não vejo nenhuma relação entre a bunda e o telefonema. Minha memória foi quem me trouxe isso, assim, gratuitamente. Minha memória gosta de me fazer rir.





Chegou. O que fazer? Quando tenho que saltar lembro-me sempre que dediquei anos de minha vida a fazer isso bem feito. A vida, de alguma forma, me preparou para o salto, saltei. Já tinha uma porta de carro se abrindo para que eu entrasse sem que me molhasse. Estavam ali dentro os olhos que não sabiam o que dizer. Foi a primeira vez que os encontrei. Seguimos, inseparáveis, até então. O trafego na cidade oferecia tantos riscos que eu já estava achando ruim ser tão agoniada. A boca, que também não sabia o que dizer, fez um brado em nome da conveniência. Isso me contaminou de uma forma perigosa. Eu sou tímida e me sinto sempre na iminência da morte. Tenho medo de morrer na memória das pessoas, desde pequena. Ser tímida explica um pouco deste meu medo. Por conta disso eu me tornei insistente. Quem passa, que fique. O brado me indicou que havia uma intimidade em jogo ali, eu arrisquei não perdê-la.





Meu corpo teve que encontrá-lo, não sou de deixar ninguém se debatendo em desespero sem nada fazer, ele precisava de minhas mãos. Armadilha, sabia. Ali eu deixei de vez de estar certa e atirei-me numa descompassada e perigosa aventura: eu queria retê-lo. Sabia que não podia, sabia tanto que ali estava, por cima de qualquer coisa eu estava passando de novo, em nome da abdicação de nosso encontro. Deveria abdicar porque embora sofra de vício pelo silêncio, como qualquer aspecto viciante, este não é de fácil lido. Eu não sei lidar com a solidão que o silêncio provoca. A solidão para mim é apavorante, tenho ali o pavor que o esquecimento me traz. Meu corpo se despediu dele e trouxe em si seu cheiro de esperas confirmadas e, agora, de saudade.

sábado, 9 de maio de 2009

Como chegar ao outro lado?

Foi ali que vi que tenho angústias e medos maiores que 20km de caminhada.
Quando o sol rasgava a mata pouco densa, quando a noite estava tão distante que nem era lembrada, quando eu não sabia que levava-se mais de 4 horas para cruzar uma chapada com meus pés a firme pisada.

Respirava muito naquela tarde. O que mais fazia era dar passos e respirar, a mente ora aquietava-se ora acelerava-se e eu desembestava na floração endiabrada dos meus devaneios.

E se quando chegarmos lá não houver mais transporte que nos leve de encontro a hospedagem?
E se quando chegarmos na metade do caminho eu, ou qualquer outro, tiver tanta sede ao ponto de passar mal em desmaio?
E se algum malfeitor sair do mundo fantástico ao nosso encontro?
E se eu levar uma daquelas minhas topadas que quebram osso?
E eles são todos mais novos, sendo eu a responsável pelo desatino que pode nos levar ao fim do caminho, mas pode nos levar ao sumiço absoluto. Responsável por conta de um ano, eu concluía. Bem pouco responsável então, aquietava-me.

O que queríamos eram aqueles passos desvairados, aquela noite menos distante, a incerteza e a sensação de abandonar o mundo por horas a fio. Queríamos cachoeira para lavar o cansaço. Era também nossa vontade saber-se conhecedores de mais uma mata, sendo esta desbravada sem guia, sem água, sem rota, sem fim e com chegada.
Dominávamos os passos acelerados mas confundíamos os pés, como crianças que têm medo de pisar em solo novo.
Uma hora de caminhada depois, já cansávamos da ausência de outras cores, de outros sons, das mesmas vozes, de tanto verde. Duvidávamos do nosso descanso, pairávamos sobre terra molhada. Em algum momento fingia flutuar para descansar os pés e a alma.
Descobri que dor de caminhada pode dar nas panturrilhas, ou nos quadris, ou nos dedos dos pés. Os corpos se correspondiam e falavam um ou outro o que mais doía e o que mais temia.
Eu enganei os passos e os ouvidos, fingindo que não temia nada, enquanto até as árvores que cortavam o caminho corrompiam a constância de minha respiração.

Ali vi de perto medo fundado-disfarçado, medo e precipício, sede e corrosão, força e peso, certeza de anos bem vividos, passos para insistência e tanto verde que azul ficava.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Danou-se a paz ou, acredite, meu repente

O saculejo veio pra desandar
vieram as dívidas do crédito,
a viagem para o sertão,
a flor na multidão,
a amiga na contramão,
uma formiga na inundação,

balacobaco e confusão.

Foi Cristo Jesus que me inquietou,
porque fui falar que nem tudo é seu amor;
crucificaram-me em nome
da tempestade

anunciou-se que tá chegando, tá chegando meia-noite
e nada desta trepidação se pormenorizar de vez,
Adeus bom caminho dos letrados,
há tanta palpitação e exigência, talvez me reste paciência
E pra completar, meu quarto mudou-se para cá,
Nem sei mais pra onde olhar.

Peço clemência a mesma entidade que fez voar os ingressos da tarde latente,
Serei feliz logo quando avistar meu padim Ciço em solo quente.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Persepolis

Achava antes que éramos graduais, de fases e de ápice, sem nem saber o que seria o evolucionismo. Porque acreditei, por muitos pensamentos, que cada pessoa deveria passar por fases que se assemelhavam em tempo e forma,
e a partir delas haveria o alcance gradual da mágica e distante maturidade, eis o estopim humano.
Como os anos foram passando e eu até identifiquei uma corrente de pensamento, mais remota que atual, para tal conjectura, tudo mudou. Mas antes de tudo mudar, houveram minimalistas presságios do fim. Eu achei que não fosse sobreviver ao apelo do tempo. Ele me repetia por todos os lados que nada daquilo era real, que só somos um resultado, o qual não aponta para lugar algum; somos apenas sentimentação e racionamento, senão passionais e avarentos.

A maturidade ficou mais distante. Deixei a tese cansativa de lado e comecei a entender que uns descontos são necessários, embora tudo tenha limite. Dá uma chance pra alguém se corrigir ou acertar-se a ela não é só risco, pode ser acerto. Tomar banho de rio, deixar a noite se ir, crer no futuro, pedalar no escuro, dar um beijo no ombro de quem ama, fazer uma maquiagem surgir num rosto calado, mudar a ordem dos fatores e perambular sem respostas e com poucas cores, desfilar descendo ladeira e achar que o mundo ainda será visto de olhos vivos (por que tomar banho de rio e dançar no claro puderam ocorrer antes). Limite vem com o fim da vontade.


Trafegar salvando a existência deveria ser mais comum. Tudo se mistura tanto que somente aos desinibidos de questões é dado o direito de saber dos limites. É tanto medo e confusão que existir, no sentido de estar, é afetado.
Afetamo-nos por rebuscarmos, contemo-nos por temermos e preferimos não perdoar a nada.
Cansamos a vida. Não sabemos o que fazer com o tempo. Solidificamos o sentir, enquanto ele deveria ser líquido.
Pensamos criar um mundo feliz com livros e experiência, mas volta e meia a felicidade comprova que é sentimento que gosta de oscilar. Ela atrela-se a maturidade no que ambas tem de distantes e inacabadas. Somos sempre maduros e felizes, só não sabemos como nos portar.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ela

Desde que nasceu sabia que ninguém cuidaria tão bem dela como ela cuida dos outros. Desde que nasceu sua consciência, claro. Por que quando nasceu, embora ela diga que lembre, não sabia que havia chegado num dia de festa alheia. Era quase a hora dos convidados chegarem e ela veio antes de todos eles, quando sua mãe tinha que transportar panelas de festa, além de filho pronto na barriga. Filha, no caso, era ela.

A festa era do irmão e era festa de primeiro ano. Se juntar a família que triplicaria de tamanho em 10 anos não era tarefa fácil. E estragar a festa do irmão era tarefa mais difícil ainda. Ela veio sorrindo e dizendo ao mundo que olhos podem brilhar quando há turves, isto centímetro a centímetro. Ela sabia que aquilo ruim era sofrimento, que dor quando dói marca para sempre e que os olhos aflitos devem servir para enxergar coisas que facilitem a vida de alguém. Foi com isto que ela aprendeu que poderia ter uma missão, ela escolheu a sua: cuidar. Era segunda mãe para todo o rebento que se sucedeu no ventre materno, foram mais 12, com ela e o aniversariante, somavam 14.

Moleca de trocar fraudas de moleques, foi crescendo e fazendo sua missão de passear no mundo aflita e ajudando coisas a permanecerem intactas. Ela remexia a vida para que esta ficasse. Cresce menina, cresce. Por que tu tem que dar a luz para estes olhos miúdos que não vieram ao mundo no dia de outro aniversario. Ter chegado logo ali deu a ela o lugar de protagonista da família, o lugar de quem veio para mudar, por que nem o aniversário estava que prestasse.

Ela foi...ela foi para cidade bem grande e eu não sei, nem consigo imaginar, como seus pais ficaram diante daquilo. Acabei de lembrar, disse-me ela outro dia, que sua mãe estava operada e ela mesmo assim foi, ela acha que isto foi grandioso, por que ali ela rompera com sua primeira maternidade, a que ela não quis.

No colégio de sua adolescência, exatamente quando ela julgava dar um passo compatível com o tamanho de suas compridas pernas, ela soube continuar sua missão no mundo. Mesmo tendo sentido que abandonara os iniciadores dessa ela não a deixou. No instante do abandono era possível que ela houvesse desistido da razão de sua jornada, ela queria o mundo. E conquistou aquele mundo de silêncio e mulheres, de juventude ou velhice, por meio daquilo que a motivara.

Foi ajudando, cuidando, que ela desbravou a cidade com seus olhos aflitos, descobriu que quase nada separava a riqueza da pobreza, a pouca idade da muita idade. Por que meninas ricas eram suas amigas e freiras também, embora tivesse descoberto que é muito o que difere os lugares, as pessoas que os habitam, a beleza que os formam.

Um dia ela volta para o lugar de suas lembranças de açude e seca, e lá encontra mais alguns de seus filhos, ela não os gestava, mas os garantia no mundo. Não havia mais quarto pra ela, então achou conveniente saber de outro abrigo. Optou pela capital. Arrumou mais uma vez suas malas e foi achar seu novo lugar. Em pouco tempo achou que aqui cabia mais uma família.

A missionária, em dívida, trouxe todos o os que pôde, o mais rápido possível. Seus filhos ficaram mais próximos, todos eles. Entre amizades feitas e namoros desfeitos, ela conheceu um rapaz acadêmico e viu nele complacência e uma firmeza tímida. Encontravam-se, ou de chegada ou de saída.

De alguma forma ela resolveu cumprir sua missão também com ele. Eles casaram-se. Seus olhos grandes e sempre comovidos olham o mundo como quem sonha, como quem precisa fazer afeto, mesmo fazendo pouco sentido. Há n'ela uma bondade pronta, uma forma de pulsar frenética, o frenesi do auxílio, é visível n'ela o quanto ter esta missão cansa a espera, ela espera e quando quer alcança.