sábado, 9 de maio de 2009

Como chegar ao outro lado?

Foi ali que vi que tenho angústias e medos maiores que 20km de caminhada.
Quando o sol rasgava a mata pouco densa, quando a noite estava tão distante que nem era lembrada, quando eu não sabia que levava-se mais de 4 horas para cruzar uma chapada com meus pés a firme pisada.

Respirava muito naquela tarde. O que mais fazia era dar passos e respirar, a mente ora aquietava-se ora acelerava-se e eu desembestava na floração endiabrada dos meus devaneios.

E se quando chegarmos lá não houver mais transporte que nos leve de encontro a hospedagem?
E se quando chegarmos na metade do caminho eu, ou qualquer outro, tiver tanta sede ao ponto de passar mal em desmaio?
E se algum malfeitor sair do mundo fantástico ao nosso encontro?
E se eu levar uma daquelas minhas topadas que quebram osso?
E eles são todos mais novos, sendo eu a responsável pelo desatino que pode nos levar ao fim do caminho, mas pode nos levar ao sumiço absoluto. Responsável por conta de um ano, eu concluía. Bem pouco responsável então, aquietava-me.

O que queríamos eram aqueles passos desvairados, aquela noite menos distante, a incerteza e a sensação de abandonar o mundo por horas a fio. Queríamos cachoeira para lavar o cansaço. Era também nossa vontade saber-se conhecedores de mais uma mata, sendo esta desbravada sem guia, sem água, sem rota, sem fim e com chegada.
Dominávamos os passos acelerados mas confundíamos os pés, como crianças que têm medo de pisar em solo novo.
Uma hora de caminhada depois, já cansávamos da ausência de outras cores, de outros sons, das mesmas vozes, de tanto verde. Duvidávamos do nosso descanso, pairávamos sobre terra molhada. Em algum momento fingia flutuar para descansar os pés e a alma.
Descobri que dor de caminhada pode dar nas panturrilhas, ou nos quadris, ou nos dedos dos pés. Os corpos se correspondiam e falavam um ou outro o que mais doía e o que mais temia.
Eu enganei os passos e os ouvidos, fingindo que não temia nada, enquanto até as árvores que cortavam o caminho corrompiam a constância de minha respiração.

Ali vi de perto medo fundado-disfarçado, medo e precipício, sede e corrosão, força e peso, certeza de anos bem vividos, passos para insistência e tanto verde que azul ficava.

4 comentários:

  1. que belos, márlia. me sugere tantas paisagens. e adoro poemas assim
    : geotudosgrafias. gosto em particular disso que me representa
    : O que queriamos eram aqueles passos desvairados, aquela noite menos distante, a incerteza e a sensação de abandonar o mundo por horas a fio. Queríamos cachoeira para lavar o cansaço. Era também nossa vontade saber-se conhecedores de mais uma mata, sendo esta desbravada sem guia, sem água, sem rota, sem fim e com chegada."

    ah, sem falar o final. alguém já me disse que é o segredo pra um bom texto. tu sabe...

    beijo :)

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  2. precisa nem dizer, não preciso entrar em mata fechada para que esses temores me visitem. sei dos que identificam no corpo as dores da caminhada, o silêncio incômodo das ausências. Mata e mistério nos conduzem a flutuações do espírito. texto belo, que nem você. bjs

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  3. Pintei um quadro... te lendo.
    Abraço!

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  4. Nossa caminhada em trotes como equinos que nos fizemos, tão bem contada, quase me fez a cerâmica do quarto ter cheiro de terra molhada!

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